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Ano XII - Jornal N.º 22 - Junho de 2003 |
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«Peter-Hans Wong» O facto de termos nascido no mesmo dia do mesmo mês e do mesmo ano foi só uma das muitas razões que cimentaram a minha amizade com Peter-Hans Wong. Para além deste, o facto de ele ser, literalmente, um cidadão do mundo também ajudou a criar proximidade. Nascido na Austrália, Peter-Hans era filho de uma dinamarquesa e de um filipino, o que lhe conferia aquele aspecto tão único e personalidade tão especial, tão difícil de definir e que a mim tanto me atraía e aguçava a curiosidade. Como se não bastasse a mistura que tinha herdado à nascença, tinha vivido e percorrido meio mundo, apenas pelo simples prazer da aventura. Conhecemo-nos no comboio de S. Petersburgo, na Rússia, para Rovaniemi, na Finlândia. Peter-Hans entrou na minha carruagem e desde esse momento foi impossível tirar os olhos dele. Tinha a pele morena, traços orientais pouco marcados, contrastando com o loiro intenso do cabelo despenteado e da barba por fazer há alguns dias e com o verde claro dos olhos. Vestia uma roupa particularmente vistosa, larga, colorida e de tecidos leves, apesar de o Verão naquelas paragens não ser dos mais quentes, o que lhe dava um ar descontraído. Ao pescoço, um magnífico pendente de madeira esculpida prendeu a minha atenção por alguns momentos. Às costas trazia uma mochila e na mão um caderno de capas de cabedal envelhecidas. Apesar de só se encontrarem mais duas ou três pessoas dentro da carruagem pediu sem medo no seu inglês perfeito se podia sentar-se a meu lado. Consenti. Pousou a mochila, sentou-se e imediatamente começou a tomar notas no caderno de aspecto gasto como se a minha presença fosse algo de insignificante. Tentando disfarçar a curiosidade que me consumia não disse nada por alguns momentos. Limitei-me a observá-lo e a imaginar todas as histórias possíveis de encaixar nele. Felizmente não durou muito o silêncio. Peter-Hans fechou repentinamente o caderno e começou por apresentar-se com um à-vontade invejável e com uma originalidade fora do comum. Não só me disse o nome como também me contou a história da sua vida: as suas origens, aquilo que pensava acerca de tudo e a vontade enorme que tinha de conhecer o mundo por si próprio, sonho que estava a realizar desde os 16 anos, quando saiu de casa, na Austrália, com apenas a mochila, o caderno e algumas moedas no bolso. Já lá iam 5 anos e desde então tinha viajado por toda a Ásia, sem rumo certo, comendo daquilo que lhe davam e trabalhando esporadicamente em qualquer coisa que aparecesse para poder pagar o transporte de um país para outro. Estava agora a iniciar-se na Europa e a Escandinávia ia ser a sua porta de entrada. Eram notórias as influências das diferentes culturas que cruzara e era invejável o conhecimento que possuía sobre os mais diversos assuntos. Durante os dois dias que durou a viagem não nos separámos nem calámos por um só minuto. À noite, encolhíamo-nos debaixo de uma manta surgida de dentro da mochila de Peter-Hans para afastar o frio que se fazia sentir naquelas paragens. Contei-lhe tudo também sobre mim: o meu nome (que ele tinha certa dificuldade em pronunciar), que era portuguesa, que estudava História na Faculdade e que também sonhava conhecer o mundo, principalmente para aprofundar conhecimentos na minha área. Pedi-lhe que me contasse as suas viagens, os países, as pessoas, algo que na realidade me fascinava mais do que qualquer coisa, e a certa altura perguntei-lhe o que escrevia no caderno. Peter-Hans sorriu. Tinha um sorriso aberto, honesto, e respondeu que para já ia escrever a minha morada em Portugal, para me visitar daqui a uns tempos, se por acaso o destino o levasse lá. Quanto ao resto não me quis revelar. Confesso que me senti desapontada e ainda esbocei um protesto mas de nada serviu. Não cheguei a saber o que continha o misterioso caderno. Foi com grande tristeza que me despedi dele em Rovaniemi. Ele iria continuar a explorar o mundo e eu dentro de três dias estaria num avião de volta a Portugal. Não resisti a abraçá-lo uma última vez e foi com algum esforço que segurei as lágrimas que teimavam em querer cair quando ele me estendeu o pendente que usava ao pescoço. Eu não tinha nada de especial para lhe dar em troca. Ele próprio me pediu o lenço azul que me envolvia o cabelo. De volta a Portugal, ao longo dos anos que se seguiram, Peter-Hans tomou-se para mim uma memória presente, mas algo esbatida, uma vez que desde aquela viagem não tinha sabido nada mais dele. Foi numa tarde quente de princípios de Verão, precisamente no dia dos meus anos, que numa livraria de rua, na Baixa, ouvi o meu nome, dito por uma voz inconfundível e pronunciado com a mesma imperfeição adorável com que o tinha ouvido na minha viagem à Rússia e Finlândia. E aquela memória esbatida tomou-se de repente nítida na minha mente. Voltei-me muito devagar, com medo de me desiludir, e dei de caras com a mesma pureza e simplicidade de há anos atrás: o mesmo cabelo loiro despenteado, a mesma barba por fazer, os mesmos olhos verdes sorrindo abertamente, a mesma pele morena envergando roupas leves e coloridas e, ao pescoço, não o pendente de madeira porque esse trazia-o eu, mas sim um lenço azul. Abraçámo-nos no meio da multidão e ficámos assim muito tempo. Peter-Hans ficou comigo em Portugal durante todo o Verão. Percorremos o país de lés a lés, de mochila às costas. Tive esperança de poder convencê-lo a ficar, talvez para sempre, mas uma alma livre como a dele não se prende durante muito tempo em lugar nenhum. Uma manhã de Setembro acordei com o coração apertado. Procurei Peter-Hans por todo o pequeno apartamento, mas tudo o que encontrei foi o seu caderno de capas de cabedal envelhecidas e um bilhete: Não há ninguém que o mereça mais do que tu. Demorei muito até ter coragem para o abrir, mas quando o fiz encontrei lá dento todos os lugares por onde tinha passado desde a sua saída da Austrália, todas as impressões, todos os pensamentos, todas as ideias de Peter-Hans Wong e ainda algumas fotografias amareladas com um valor incalculável para mim. Senti que possuía o tesouro mais importante da Humanidade e guardei-o religiosamente junto das coisas que me são mais queridas. Quanto a Peter-Hans, não sei onde estará agora, mas sei que está feliz, sei que é agora uma memória nunca mais apagada da minha mente e sei que nalguma tarde quente de Verão vou voltar a encontrá-lo. Talvez em Portugal, talvez noutro ponto qualquer do Mundo...numa das suas muitas e permanentes viagens que são, afinal, a sua vida. Carolina Cardoso 1º Prémio, Prosa, Escalão A |
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