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Ano XII - Jornal N.º 24 - Junho de 2004 |
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Grupo da Matemática e Ciências da Natureza O Zero
Durante muitos séculos, no entanto, muitos matemáticos teimaram em chamar-lhe «cifra». No século XIX, por exemplo, o grande matemático Gauss ainda escrevia «cifra» e não «zero». Os árabes tinham ido buscar à Índia o misterioso zero, um símbolo que representava um «vazio». O problema tinha surgido quando, na Índia, quiseram escrever os números (não se podiam guardar todas as contas na cabeça, por muito boa memória que houvesse naqueles tempos de boa memória...). Ora, era fácil dizer, por exemplo, que um certo rebanho tinha quinhentos e um carneiros (isto é, cinco centenas, nenhuma dezena e uma unidade); mas como escrever isso? Se só existissem o símbolo 5 e o símbolo 1, e se quisesse colocar o 5 na terceira coluna (a das centenas) e o 1 na primeira (a das unidades) como se poderia escrever que, entre os dois, havia uma segunda coluna (a coluna das dezenas) sem nenhuma quantidade, isto é, «vazia»? O zero apareceu, assim, para resolver um problema da escrita dos números. Daí em diante, a vida do zero foi uma verdadeira aventura. Muitos povos ignoraram-no durante séculos (a numeração romana, por exemplo, não tem zeros): para que é que servia um sinal que não representava quantidade nenhuma? Ninguém vê zero vacas num campo nem zero estrelas no céu... Para quê contar, ou medir, nada? Na Idade Média, o pobre zero chegou mesmo a ser considerado como uma criação do Diabo! Hoje, a matemática não existiria sem o zero. Apesar disso, ele continua a não ser um número como todos os outros. É um personagem estranho e original, que troça permanentemente do nosso senso comum: não é um número positivo nem número negativo, e é duas coisas ao mesmo tempo; é o único número que é igual ao seu oposto; na adição e na subtracção comporta-se como se lá não estivesse; na multiplicação, pelo contrário, absorve todos os outros factores; por fim, quando numa divisão, é o divisor, torna-a completamente indefinida... Não se pode dizer que, quanto a comportamento, o zero seja uma pessoa, isto é, um número, certinho...
Manuel
António Pina / Pedro Proença |
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